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É só ficção

Mãe,

Sei que a senhora ainda deve estar com raiva de mim por ter saído de casa. Sei que ainda me culpa, apesar de que, no fundo, não parecia querer que eu ficasse. Mas estou escrevendo porque ainda não entendi… queria conseguir entender.

Não entendi como uma característica minha foi considerada tão relevante a ponto de apagar todas as outras. Não entendi como deixei de ser aquele que é gentil, aquele que é educado, aquele que é estudioso, aquele que é trabalhador, que acorda cedo, que é quieto, que não usa drogas, que não bebe, que escuta sem reclamar ou faltar com o respeito, para ser somente aquilo… será que a minha morte te faria lembrar que sou mais do que só aquilo? Ou será que serei pra sempre resumido à isso? Será que isso é o mais importante? Será que te faria sentir algo por mim?

Depois de tudo que passei, depois de tudo que passamos, apesar de não conseguir me sentir amado, nem conseguir sentir amor, decidi te escrever.

Essa é uma despedida, mãe. Uma despedida da senhora, uma despedida de vocês, uma despedida da vida que eu tinha e da vida que eu poderia ter. Porque se eu não posso ser tudo que sou, prefiro ser nada.

 

NTeF

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